A Comissão de Melhoramentos da Freguesia de Aguda (CMFA) apresentou recentemente uma candidatura para a construção de uma ERPI (Estrutura Residencial para Idosos), projeto orçado em cerca de 2,5 milhões de euros, com capacidade para 38 utentes e que prevê criar 15 postos de trabalho iniciais.
Numa altura em que a Comissão completa 40 anos de existência, estivemos à conversa com o presidente da direção, que nos deu conta do trabalho que tem sido feito durante este período e perspetivou o futuro desta instituição particular de solidariedade social.
Acílio Marques preside há 22 anos à direção da Comissão de Melhoramentos da Freguesia de Aguda, da qual é sócio nº 1 e fundador há 40 anos, quando esta tinha como missão sobretudo o desenvolvimento da área desportiva. A instituição evoluiu e direcionou a sua atividade especialmente para a área social, dispondo atualmente das valências de Serviço de Apoio Domiciliário, que abrange 63 utentes e Centro de Convívio, com 15 utentes. Gere um orçamento anual na ordem dos 400 mil euros e emprega 19 colaboradoras.
HORIZONTE - Completaram-se agora 40 anos da existência da Comissão de Melhoramentos. Que mais-valias considera que a instituição trouxe para a freguesia e para a região?
ACÍLIO MARQUES – Temos vindo a melhorar a qualidade dos serviços prestados à população, nas valências e outros serviços em funcionamento, contribuindo decisivamente para a melhoria da qualidade de vida, quebra do isolamento e manutenção dos idosos por mais tempo nas suas casas. Para além disso, a Comissão assume-se como a principal empregadora da freguesia e uma das mais dinâmicas instituições da região.
H - Qual o principal papel da Comissão de Melhoramentos na comunidade?
AM - A Comissão de Melhoramentos de Aguda enquanto associação sem fins lucrativos, está comprometida, e até identificada, com as pessoas necessitadas, prestando-lhes as ajudas possíveis com os seus próprios meios, embora requerendo a intervenção subsidiária do Estado e assumindo-se como co-responsável e regulador. Deste modo, posiciona-se a favor das pessoas necessitadas, procurando as melhores soluções possíveis que proporcionem aos nossos utentes um serviço de rigor e qualidade adequado às suas necessidades.
Temos como propósito dar expressão organizada ao dever moral de solidariedade e de justiça entre os cidadãos em geral, especificamente junto dos idosos, inválidos e portadores de deficiência, mediante a concessão de bens, prestação de serviços e outras iniciativas de promoção do bem-estar e qualidade de vida dos mesmos em diversas e variadas áreas (social, cultural, recreativa, desportiva, entre outras).
Para o cumprimento destes objetivos, dispomos de respostas ao nível de Ação Social, Ação Cultural e Ação Recreativa.
H - Que tipo de respostas podem os agudenses encontrar?
AM - Na Área Social, somos IPSS e iniciamos em 1994 a valência de Serviço de Apoio Domiciliário, no sentido de minimizar as disfunções familiares e sociais existentes na população idosa e carenciada. Começámos com 7 utentes e atualmente são acompanhados 63 nesta valência. Para além de evitar o desenraizamento da população idosa e a sua institucionalização em Lares prestamos serviços ao nível da alimentação, higiéne e conforto, pequenas limpezas e arrumações.
Na valência de Centro de Convívio temos capacidade para 20 utentes e prestamos apoio a 15 neste momento. Este Centro tem-se revelado uma mais-valia para a população idosa, proporcionando-lhes a possibilidade de sair das suas casas e de conviver com outras pessoas com os mesmos problemas, numa lógica de partilha, num espaço central e privilegiado.
Dispomos também de um Centro Local de Ajudas Técnicas, onde disponibilizamos a preço simbólico camas articuladas elétricas, mesas de cabeceira, cadeiras de rodas, andarilhos, cadeiras sanitárias e de banho, canadianas, entre os outros equipamentos.
Finalmente, dispomos de uma Loja Social, onde é disponibilizado aos mais necessitados vestuário, calçado, brinquedos, material didático e artigos para o lar.
H – E nas áreas cultural e recreativa?
AM - Na área Cultural desenvolvemos parcerias com entidades formadoras e dispomos de sala de formação devidamente equipada com material multimédia e mobiliário com capacidade para 20 formandos e com bar de apoio. Dispomos ainda de um espaço multiusos com o objetivo de promover bailes, concertos, teatro, colóquios, festas de aniversário e convívios. Na área Recreativa dinamizamos atividades no parque de fitness para séniores e um pavilhão polidesportivo.
H - Quais os principais constrangimentos com se depara uma instituição como esta?
AM - Os principais constrangimentos centram-se fundamentalmente nos elevados custos de funcionamento para o cumprimento das obrigações legais e noutras dificuldades que advêm fundamentalmente dos financiamentos reduzidos e das dificuldades em encontrar fontes de financiamento alternativas à comparticipação estatal.
H - A Covid-19 trouxe consigo desafios e problemas transversais à sociedade e ao mundo. A área social e, concretamente, da terceira idade não foge à regra? Quais foram as principais dificuldades dos últimos meses?
AM - De facto, o contexto da atual pandemia COVID-19 tem conduzido a profundas alterações na vida dos cidadãos, nas organizações e na sociedade em geral. O grupo mais afetado pela pandemia foram os idosos e isso teve naturalmente implicação no funcionamento das IPSS.
A Comissão de Melhoramentos de Aguda, tal como uma grande maioria das IPSS, viu-se forçada a implementar medidas adicionais de higiene e de proteção individual, bem como de um plano de contingência para casos suspeitos e confirmados e a suspensão de reuniões presenciais. Para além disso, suspendeu a valência de Centro de Convívio.
Apesar de todas as dificuldades, conseguimos, até ao momento, manter todos os nossos serviços de apoio domiciliário devido à ausência de casos Covid entre as nossas funcionárias.
H - Qual a situação economico-financeira da Comissão de Melhoramentos?
AM - Sendo uma organização sem fins lucrativos, a CMFA tem vindo a conseguir consistentemente, um equilíbrio entre a sua missão e a responsabilidade financeira com uma gestão dos recursos, baseada num sistema rigoroso e exigente de prestação de contas. Posso afirmar que, apesar das dificuldades, a CMFA é uma Instituição com uma situação económico-financeira sustentável.
H - Os idosos que são apoiados em regime de apoio domiciliário têm vindo a ter uma representatividade crescente ao longo dos últimos anos? Sinal de que reconhecem a importância da proximidade de instituições como esta?
AM - Acredito que sim! A Freguesia de Aguda é uma freguesia predominantemente rural onde 30% da população são idosos que vivem em pequenos aglomerados (40 localidades), distantes entre si, o que condiciona os processos de mobilidade e socialização. A população envelhecida vê-se muitas vezes “jogada” ao abandono ou sofre pela ausência dos seus familiares. O êxodo da população mais jovem, que saiu em busca de melhores condições de vida e de oportunidades de emprego, despovoou os lugares rurais, deixando para trás apenas os mais idosos que reconhecem a importância fundamental da Comissão de Melhoramentos de Aguda na minimização das suas disfunções familiares e sociais.
H - Que projetos tem a Comissão para o curto prazo?
AM - Submetemos, recentemente, duas candidaturas que esperamos venham a ser aprovadas e que irão constituir um marco importante para o desenvolvimento e sustentabilidade da instituição, designadamente a construção de uma Estrutura Residencial Para Idosos e a ampliação e requalificação do edifício de Apoio Domiciliário e Centro de Convívio. A ERPI é um projeto arrojado, orçado em cerca de 2,5 milhões de euros, que temos projetado para um terreno cedido pela Junta de Freguesia, na Almofala de Baixo. Terá capacidade para 38 utentes e criará 15 postos de trabalho iniciais...
H - Como gostaria de ver a instituição daqui a dez anos?
AM - Obviamente gostaria que a Comissão continuasse a ter sucesso na sua missão social explorando as oportunidades, fundamentalmente na área da inovação, de competência na liderança e mobilização de recursos humanos e no compromisso de cumprimento dos objetivos, respeitando a sua missão de carácter social. Acredito que, continuando a respeitar os principais critérios económico-financeiros e mantendo-se competitiva ao nível da eficiência e da eficácia, dentro de 10 anos será uma das principais referências em toda a região.